quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O empregado

Acordei me sentindo estranho. Aquela sensação esquisita, não dá para explicar. Algo com o clima talvez? Com ruídos...talvez o próprio corpo, a sensação de algo por acontecer... Sei lá.  Como todos os dias, caminho até a sala mal sustentando o corpo cansado de dormir tarde e acordar cedo.

"Hmmm já sei!" - penso. Tem a ver com essa coisa nova de ser um empregado. Há poucos meses passei a bater ponto, vestir todo social, vale dia vinte e salário no início do mês. antes disso, foram quinze anos como empresário, ou micro empresário, ou mini.... ou quase, tanto faz. O maior sócio era o governo mesmo, então tanto faz. E depois de tantos anos, livre! Livre para ser um empregado!

Pego um copo, e o encho com o chá mate da geladeira. Mais fácil do que fazer café com sono, ainda que gelado. Me afundo nesse sofá que me abraça, sonolento. Começo a fuçar no celular. Não queria, mas olho minha conta.

OPA!

O que é isso?!...

Entrou dinheiro!...

Mas... dinheiro?! Como assim?!... Pleno clima natalino?! Fui ver... era o décimo-terceiro.

A surpresa é inevitável, a sensação nova e agradável, ainda que não fosse uma surpresa, só era nova. Como tendo ganhado algum sorteio, destaco: pelo menos para mim. "Quinze anos só pagando" - penso de novo. Com os olhos naquele saldinho, começo a passear nos muitos anos planejando desde janeiro o décimo-terceiro da equipe, as reuniões tensas, o papagaio no banco, o planejamento da escala para o difícil momento em que aquele um ou aquele outro saía de férias. Isso sem falar daqueles que, logo ao voltar, se sentavam do outro lado da minha mesa e iam tascando logo com aquele olhar esquisito... "Seu Pereira, recebi outra proposta..." - e a solidão que isso me provocava.

O celular está na minha frente, mas eu estou em algum momento do passado. Penso no Juninho, que passou em um concurso da Caixa e vazou - justo ele que me custou tanto esforço e dinheiro para formar. Na Natália, que era firme e eficiente, quando trabalhava, claro, porque vivia de atestado em atestado. O que me lembra também a Judite, a máquina de fazer filhos. No Miguel, motorista altamente confiável que eu descobri, mais tarde, que levava mulher na viagem e negociava pequenas partes da carga. Nele e no Tadeu, que botava na carroceria mais do que devia. E no Dirceu, que fazia de conta que conferia. Meus sócios ocultos, que dividiram comigo vários pequenos prejuízos.

Penso também nos meus sócios, ah... meus sócios... Que figuras! Me ajudaram tanto na vida... dando aquele exemplo altamente eficaz de como não fazer as coisas. Me ensinando a cada dia com seus erros de mentalidade, estratégia e planejamento... me arrastando junto para suas péssimas decisões, e sua preguiça institucionalizada! Me senti novamente casado, mas não tô falando desse casamento normal, onde os dois se amam e dividem tudo, dor e prazer. Tô falando de poliamor. É esse o termo que usam hoje em dia? "Poliamor"? Era um, casado com outros três. Tava mais para suruba. Uma bela suruba registrada em cartório. E da qual eu tentei sair várias vezes, maldito papel. Penso: papel em dois sentidos: papel mesmo de escrever, guardado no cartório, e papel de função, você e sua equipe, você e seus clientes,você e seu produto. Por pensar nisso, penso nos clientes. Valeram tanto a pena! Tantas horas além, tanto esforço. Os traidores? Não os culpo. Se até eu quis meter a botina considerando os sócios que eu tinha, imagina que recebia a dupla "atendimento/produto" que eu ainda conseguia a oferecer.

Começo a ficar inquieto quando me recordo do fim. Eles - meus sócios - não fizeram nada para merecer. Incoerente fui eu, tendo desprezado chances ainda maiores que esta outras vezes, por pura ética. Às vezes por medo também. Lembro ter lido em algum lugar que o medo era bom, que ajuda o cara a não se enfiar em nenhuma gelada, às vezes ao custo da própria vida - ainda que perder a vida dê menos medo do que perder a pompa. Então um belo dia eu perdi o medo - já que ética por ética, a minha estava se sentindo muito solitária, sofrendo a falta das outras - e na primeira oportunidade subsequente, avisei: tô fora. Aliás, isso me dói. Poderia ter sido em uma das anteriores, igualmente vantajosas.


Paro com os devaneios, porque é hora do banho e do uniforme, então me espreguiço e, devagar, me ponho de pé. Olho para dentro deste apartamento, minha família ainda dorme. Há um ar de calma e silêncio neste despertar matinal, somado ao frescor da minha sala de estar. Considerando as lembranças, pareço ter acordado de algum sonho. Só pode ser. E com décimo-terceiro na conta.

Uma SMS pipoca. É o RH avisando sobre minhas férias. Férias! É de comer, isso? Definitivamente, adeus sono.

Isso está ficando muito bizarro mesmo. E eu tô é gostando.


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