quinta-feira, 14 de maio de 2009

A insustentável inocência do ser

Enquanto eu dilacerava as entranhas de um X-Tudo de três ou quatro andares, observava pela janela, reflexivo, o movimento lento dos carros na avenida a três quilômetros de distância da minha janela, no segundo andar desse prédio público. A avenida tem uma elevação lá naquele ponto, o que torna o movimento dos automóveis, à noite, interessante de observar, especialmente para quem está matando 6 horas de trabalho lentamente, minuto a minuto, com a frieza dos mais experientes assassinos.

Não sei exatamente o que me levou a isso, se foi o deslocamento de recursos e energia de regiões periféricas (como o meu cérebro) para regiões de maior... digamos... "atividade" (como o meu estômago naquele momento), ou se foi algum milagre ou efeito físico ainda não explicado que me tornara repentinamente um filósofo dos problemas da atualidade... mas o fato é que eu passei a pensar sobre as grandes catástrofes contemporâneas, metaforicamente falando.

Entre uma mordida e outra em meu supersanduba, me lembrei da hipocrisia humana. A hipocrisia é, basicamente, uma mentira, normalmente muito bem contada. Às vezes tão bem contada que até o próprio hipócrita não sabe que a está contando. Se a sua hipocrisia vem de uma fonte natural (seja lá o que isso quer dizer), isso faz dele inocente. Pelo menos inocente no sentido de não ter refletido muito bem sobre seus princípios, e portanto de não ter tido inteligência o suficiente para perceber que eram hipocrisia pura.

E isso me leva a pensar: é impossível ao ser, enquanto humano - eu incluído, não ter nem sequer uma leve brisa, ou uma sutil sombra de hipocrisia em alguma área de sua vida, de seu comportamento.

Vou citar um exemplo: o religioso que apareceu hoje no Terra, acusado de estuprar por mais de 10 anos as duas próprias filhas, hoje com 17 e 21 anos. Esse é um autêntico exemplo de hipócrita, daqueles indesculpáveis. Prega uma coisa, e pratica outra. Esse é um hipócrita por opção, pois é consciente de sua ambiguidade. De que crê (ou confessa que crê) em uma coisa, mas pratica outra absolutamente contrária.

Mas tem também o exemplo da "hipocrisia implícita" (se é que o termo existe). Imagine uma pessoa preparando uma festa para o próprio aniversário. Ele está exercendo a sua dose de hipocrisia quando - e se - disser coisas como "Ah, gente, não precisa de presentes", "Minha intenção é só alegrar meus amados" ou a máxima "Deixa tudo aí que depois eu limpo tudo com o maior prazer". Embora a palavra "hipocrisia" pareça forte aqui, no fundo no fundo, é ela mesmo mostrando sua cara pois no fundo no fundo, o que o aniversariante mais quer é ser lembrado, se sentir querido, alguns até mesmo paparicados. E alguns até presentes querem (que horror). Senão nem teria feito uma festa.

Pode não ser a clássica e corrosiva hipocrisia do religioso pedófilo, do homossexual enrustido, do policial criminoso, ou do político ladrão. Mas os princípios estão lá: os gestos - muitos deles pensados - apontando para o contrário do que se gostaria de dizer, ou do que se sente. Porque não são gestos naturais. São encenações da vida ideal, mas não da vida real.

Porque a vida real, se fosse vivida ao pé da letra, seria feia.

Políticos diriam que estão indo lá para ajudar a si próprios em primeiro lugar, à família e aos chegados em segundo lugar, e ao resto do povo se sobrar tempo.

Muitos - eu incluído de novo - fariam careta ao comer um prato. Ou nem mesmo comeriam: já fariam careta só de olhar a comida chegando na mesa. Imagine o cara chegando em casa com um pacotinho contendo um X-Tudo (tipo esse aqui que eu acabei de devorar) e uma coca, e isso porque não gosta da comida da mulher. Se ele for hipócrita vai dar uma desculpinha. Se ele não for, vai dizer que não gosta da comida dela, ainda que diga com jeitinho. (Olhando por esse lado... acho é que muitos maridos e mulheres sequer se casariam).

Muitos empregados mandando o patrão ir tomar naquele lugar. E muitos vice-versas.

...

Muita franqueza até aqui, mas não quer dizer que franqueza seja sinônimo de verdade. Uma pessoa pode ser franca, acreditando estar certa, sem estar, e isso porque todo mundo confunde franqueza hoje em dia com arrogância e petulância. Quer um exemplo?

Imagine uma pessoa "A" dizer para a uma pessoa "B" (que acabou de conhecer) que ela é uma prostituta. A pessoa "A" chegou a essa conclusão pelas roupas, estilo, acessórios e postura da outra. E PÁ!! tascou, franqueza pura. Mas não quer dizer que a outra seja, e se não for, tá feita a merda (deixo por conta de sua imaginação o desfecho desse cenário).

Aliás, adoro pessoas que dizem "Ah, eu sou super franca! O que eu tenho que dizer, digo logo na lata.", e dizem como se tivessem acabado de chegar em primeiro lugar em uma maratona - rompendo a fita da chegada. Cabeça erguida, olhar expressivo, passando a idéia de seriedade e objetividade.

Comportamento encontrado no universo feminimo mais do que no masculino, essa normalmente é a personificação da hipocrisia mista (sim, mais um termo novo). Metade da sua hipocrisia é deliberada, a outra metade é inata. Ela (ou ele) normalmente é arrogante, quando quis dizer franca (ou franco).

Porque - digo por experiência própria enquanto vítima - pessoas "super francas" só exercem sua tão abundante franqueza quando é interessante impôr sua presença, sua voz, sua personalidade, sua vontade. Ou quem sabe para humilhar alguém mesmo, que ninguém é de ferro.

...

A verdade sim, essa é importante. Assim como é importante a maneira como ela é dita.

Porque somos todos ilustres amantes da verdade: queremos a verdade acima de tudo! (mas dependendo de qual seja, esperamos que ela seja contada a conta-gotas. Sabe como é... pra não doer muito.)

Ou desejamos, deliciosamente hipócritas, que ela sequer seja dita. (Não éramos nós que queríamos a verdade acima de tudo?)

...

Poxa, muito gostoso isso. Acho que eu preciso fazer mais vezes isso.

To falando do X-Tudo.

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