sábado, 7 de março de 2009

Células tronco, viagens femininas e hipocrisia

(ou... Mais um capítulo explicando porque a igreja se tornou esse grande museu da humanidade.)

Não vou comentar muito sobre como isso começa... mas imagine um espermatozóide fazendo seu gigantesco passeio em direção a um óvulo e o encontrando. Ele penetra sua camada externa e, atingindo o seu interior, ambos (espermatozóide e óvulo) dão origem ao zigoto, a célula mãe. Essa célula é uma célula-tronco embrionária totipotencial, ou seja, ela possui dentro dela, toda informação necessária para criar um indivíduo inteiro.

De repente ela se divide em duas (isso se chama mitose). E cada uma dessas duas continua possuindo toda informação que havia antes de se dividir. Se elas se separassem agora (o que de vez em quando acontece) surgiriam gêmeos idênticos - o que prova que cada uma delas tem mesmo o poderzão que diziam!

Essas células-tronco continuam se dividindo individualmente, agora em 4, depois em 8, 16 e 32, até já somarem um grupinho (ainda invisível a olho nu) de 64 células. E todas elas contendo rigorosamente a mesma informação... ainda! E toda essa divisão já levou 5 dias.

Até aqui, cada uma dessas células ainda não sabe se irá caminhar para ser um braço, um coração, um pulmão, ossos, músculos, cabelos... etc. Mas por via das dúvidas, elas já levam consigo todas as ferramentas para ir onde for necessário.

Mais ou menos como as mulheres quando vão passar um fim de semana fora da cidade, e levam aquelas malas com tudo, desde biquinis fio-dental até edredons e roupas para esquiar no Alasca (bagagem extensível ao marido e filhos, se houverem). Bom, nesse exemplo cabem exceções, mas na das células não - nada de concessões! (O que acaba provando que são femininas mesmo hehehe).

Opa.. uma mudança!

Nesse ponto, alguma coisa acontece (não me pergunte, isso é coisa de Deus, o supremo programador). As células continuam se dividindo, mas agora alguma coisa muda dentro delas e elas já não darão mais origem a um indivíduo completo. Elas continuam podendo se transformar em qualquer célula, mas não mais em um indivíduo completo. E ganham outro nome: células-tronco pluripotenciais.

E elas continuam se dividindo, e transmitindo a informação umas às outras, até que finalmente sejam centenas delas!

Como se aquela mulher da viagem descobrisse que o lugar para onde vai não é gélido (mas ela ainda não sabe se é ameno ou quente). Então ela resolve dar algum fim na mala que trazia com edredons e casacos. E nos esquis.

Opa... outra mudança!

De repente, em outra ação disparada pelo supremo programador, as células-tronco recebem uma nova instrução e passam a um outro nível. Passam a agir em grupos. Um grupo vai se especializar em ossos, outro em pele, outro em músculos, neurônios, nervos, nisso, naquilo...

A coisa vai ficando tão específica que as células já não podem mais ser chamadas de células-tronco, pois já não vão gerar qualquer outra coisa, mas apenas aquele tecido ao qual pertencem.

Nessa altura, a mulher da viagem já chegou no destino final. Deixou algo em torno de 80 a 90% das malas pelo caminho, porque descobriu que a praia onde chegou, fará sol de 40 graus durante todo o fim de semana. Toda a roupa que ela precisa teria cabido numa necessaire. (Tudo bem, não precisa exagerar também heheheh)...

Falando sobre pesquisas com células-tronco

A idéia por trás da pesquisa com células-tronco é poder utilizar-se destas, para reconstruir tecidos ou órgãos inteiros, já que podem se transformar, teoricamente com a devida técnica e o devido cuidado, em qualquer coisa. Imagina uma pessoa com lesão no sistema nervoso central e que, por isso, perdeu os movimentos. Ou alguém que perdeu uma perna num acidente. Ou um rim. Ou um fígado. Ou ainda, alguém que tenha uma doença denegerativa, câncer, ou algo no coração. Seria possível salvá-la.

Mas apesar de todo o bafafá em torno do assunto, a verdade é que toda a pesquisa está em estágio muito inicial. Ninguém sabe ao certo quando - e inclusive se - será possível alcançar este objetivo.

Afinal, deve-se descobrir toda a técnica para manter o curso do crescimento, até atingir o estado final, sem que o grupo de células cultivado perca o rumo ao longo do caminho. Por isso, a pesquisa científica é necessária.

A questão do conservadorismo - principalmente da igreja

Combate-se a idéia de que embriões sejam sacrificados para que essas 64 células totipotenciais, ou essas centenas de células pluripontenciais sejam usadas em pesquisa.

O detalhe é que os cientistas TAMBÉM não querem o sacrifício de embriões.

O que influenciou os governos de boa parte dos países do mundo (inclusive o Brasil) a proibir pesquisa com células-tronco embrionárias foi temor, principalmente da Igreja, de que embriões fossem cultivados para serem, em seguida, exterminados. Um ataque contra a vida. É justa essa preocupação, não fosse por um detalhe.

O que os cientistas (inclusive no Brasil) desejam é utilizar-se dos embriões não utilizados pelas clínicas de fertilização, nesse trabalho de pesquisa. Eu disse pesquisa. Não é ainda nem sequer a aplicação prática: essa ainda deverá ter uma legislação totalmente própria.

Quando um casal faz um tratamento, alguns embriões congelados são preparados para o processo de fertilização. Antes de haver a, digamos, inserção no útero materno, eles são analisados e somente os de maior qualidade são aproveitados, os demais, vão pra onde? Para a geladeira e de lá, depois de um certo tempo, para o lixo. São esses que os cientistas pedem. (Os embriões mal formados, nem isso: já vão direto). A taxa de perda de embriões em processos de fertilização é altíssima. Mas os conservadores preferem que vão para o lixo do que servir de base para pesquisa científica.

Peraí.. tipo...pode ir para o lixo... mas não pode ir para a pesquisa?

O nome disso lá na minha terra é HIPOCRISIA.

Lutam para bloquear no âmbito político e legal o acesso dos cientistas a esses embriões, e o fazem em nome da preservação da vida. A mesma vida que vai para o lixo assim que são descartados para fins reprodutivos. É de uma hipocrisia que chega a ser paradoxal.

Mais paradoxal ainda é isso: Os vivos que seriam beneficiados pela pesquisa ficam assim... condenados à morte, em nome da preservação da vida.

...

Faço desse texto uma homenagem a todos aqueles que carregam consigo a paralisia, a leucemia, a perda dos movimentos, ou de um órgão, ou da capacidade de manter o controle sobre o corpo, sobre os nervos, que não enxergam, nao andam, nao falam.

Enfim, vítimas da hipocrisia, do sarcástico, do cruel.

...

Leia mais sobre isso aqui:
Entrevista de Dráuzio Varella com Marina Zatz, cientista
Tópico sobre células tronco do Site ABC da Saúde

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