segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O trote



Verão de 72, época de idéias revolucionárias, de juventude ativa e vibrante, de muita música, pensamentos e ativismo político nas faculdades e fora delas. Usávamos barba, cabelos compridos, camisas listradas, calças boca-de-sino, e línguas afiadas. Os brotos haviam descoberto mini-saia, o biquini, as cores vivas, os cortes de cabelo exuberantes e a maquiagem abundante. E claro, a discoteca. E com esse aparato bélico começavam a nos desafiar - nós homens (para não dizer dominar).

Eu cursava o terceiro ano da faculdade de engenharia, adorava o curso, as pessoas, o ambiente, e o envolvimento político, naquela época difícil de repressão militar. Mas eu e meus amigos aprontávamos muito também. O Brasil, afinal, era o País do futuro, e nós em pouco tempo seríamos engenheiros da nova nação.

E uma das coisas mais esperadas durante o ano era o trote da faculdade. Esperávamos por esse momento cheios de planejamento e táticas. A medida que a semana inicial se aproximava, mais aumentava nossa ansiedade. Não que os maltratássemos, mas por outro lado não os deixávamos escapar sem uma boa lembrança de "batismo". Todos têm que passar pela gozação, pela humilhação, por aquele desprezo cênico e malicioso dos veteranos, que só pensam em descontar aquilo que eles mesmos passaram quando chegaram na mesma condição, se possível com juros.

Maurício era um dos calouros da faculdade de engenharia. Esse Maurício foi um cara que, quando chegou e mesmo na condição de calouro, foi logo conquistando a amizade de muita gente, especialmente entre os veteranos. Nas primeiras brincadeiras e trotes ele levou tudo na "esportiva", inclusive conduziu o estado de ânimo dos demais calouros como ele, e cuidou que aquela fase passasse sem animosidades.

E ele foi o responsável pelo maior contra-golpe que eu já vi na vida.

Havia um veterano da minha turma, chamado Laerte, que tinha tido pólio na infância e andava mancando a perna direita. Como quase todos, usava aquela barba e aquela camisa branca fina listrada. Mas os óculos de grau com sua moldura preta espessa e seu semblante de homem sério lhe conferiam um ar assustador. Bastava a ele interpretar, e foi o que ele fez.

Combinamos tudo. Trouxemos para ele uns livros da biblioteca do DCE - diretório dos estudantes, do qual eu era vice não-sei-o-quê - e ele, se passando por professor, entrou seríssimo na sala de aula dos calouros. Calado e com aquela expressão furiosa na cara, ele parou diante daquela turma totalmente absorvida, e observou silenciosa e lentamente cada aluno. Aquilo, somado com a sua evidente deficiência física, ganhou um clima soturno. Só isso já bastou para nos fazer rir demais. Enfim, escreveu seu nome no quadro e, voltando-se para a turma, disse, com aquele pesado sotaque carioca:

- "Meu nome é Doutor Alfredo. Física Aplicada I. Prova sobre movimento." - e silenciou, olhando fixamente os alunos.

Estes se entreolharam... a palavra PROVA foi dita? É isso mesmo? Um zum-zum-zum tomou a sala, e o falso professor meteu a mão na mesa, fazendo aquele barulho horrível. Os alunos ficaram paralisados.

- É ISSO MESMO, PORRA! - gritou - TODO MUNDO AQUI FEZ FÍSICA NA PORRA DO SEGUNDO GRAU, NÃO FEZ, CARALHO?! ENTÃO VAMOS VER COMO É QUE TÁ O NÍVEL DE VOCÊS, SEUS FILHOS DA PUTA DE MERDA!!

Seus olhos pareciam saltar das órbitas, ele parecia realmente querer ir sair no braço com os calouros. Nós, escondidos em todo buraco, atrás de toda porta, parede e vidraça possível, ríamos desesperadamente da situação. Calouros apavorados mostravam na cara aquela expressão de "QUE ABSURDO!!". Alunas vestidas com suas roupas novas, compradas justamente pra estrear na faculdade, estavam com os olhos vermelhos, no limite de uma crise de chôro.

Bem nesse instante, esse garôto, o Maurício, saltou da carteira, com a mão no peito. Tentava gritar e não podia. Tinha uma expressão de terror no olhar: a boca aberta a procurar oxigênio, deu dois ou três passos cambaleantes. Todos pararam para olhar. As meninas se afastaram, os rapazes ficaram em pé. Suas mãos agora agarravam a própria camisa na altura do peito, como se quisesse arrancá-la... balbuciava, tentava desesperadamente dizer algo, seu rosto ficou de um vermelho incrível, ele começou a suar instantaneamente! E eis que surge um ronco trôpego e arrastado: "SO-CO-RRRRRO.....!!!"

E ele cai, plantado no chão, não sem antes arrastar umas duas carteiras dos alunos do corredor, lançando pelo chão seus cadernos, papéis, canetas novos.. um estardalhaço! E ali ele fica, se debatendo... Alunos correm, alunas gritam, e todos entram em pânico ao ver um jovem meio franzino tendo um ataque cardíaco na frente de todo mundo.

Laerte, então, olhou assustado pela vidraça onde estava a maioria dos veteranos escondidos pelo breu da noite, tão estupefato quanto nós, boca aberta, olhos arregalados. Eu estava tremendo, porque aparentemente havíamos provocado um susto tão grande nos calouros que um deles estava ali na nossa frente, prestes a morrer do coração, no primeiro dia de aula. Corremos todos para o lugar para tentar socorrer o menino, e eu fui o primeiro a entrar. Atrás de mim, uns dez amigos em pânico.

- CORRE! CHAMA ALGUÉM DA SECRETARIA! - alguém gritou.

- PEGA O CARRO!! ENTRA AQUI NO PÁTIO COM ELE, PORRA! VAMOS LEVAR ELE CORRENDO PARA O PRONTO SOCORRO!!

Aquilo estava uma zona, uma bagunça completa. A situação me parecia absurda, para não dizer tenebrosa. Me enfiei no meio daquele monte de gente todo encima do garoto, preparado para fazer qualquer coisa, tentar reanimá-lo, carregá-lo dali para um hospital, qualquer coisa.

De repente ele amoleceu, desfaleceu, e tinha um sorriso no rosto. Foi engraçado porque, por um ou dois segundos, todos os que conseguiam vê-lo, pararam. É aquela coisa esquisita que acontece às vezes, em que parece que até a respiração da gente pára, ficamos atônitos, tentando processar a informação. Um cara à beira da morte, com um sorriso na cara.

E ele abre os olhos. E olha pra mim. E olha para o "Doutor Alfredo", ali do meu lado.

E diz...

- "Peguei vocês, seus bosta."

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