sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

ÁFRICA

O texto abaixo foi escrito por um cineasta africano de Uganda à BBC de Londres e publicado nos jornais do mundo inteiro. Aqui no Brasil, na Folha. Copiei e colei aqui porque eu achei simples e fantástico. Leia até o final.

25/11/2008 - 13h10

Análise: Por que a ajuda externa é ruim para a África
SORIOUS SAMURA
da BBC

O continente africano abriga 10% da população do mundo e responde por apenas 1% do comércio global. Mas nós, africanos, não podemos continuar culpando o Ocidente por nossos problemas --está na hora de assumirmos nossa parcela de responsabilidade.
Na região de onde venho, no oeste da África, existe um ditado: "Um bobo aos 40 é um bobo para sempre". A maioria dos países africanos conquistou sua independência há mais de quatro décadas.

Grande parte deles foi abençoada com todos os elementos necessários para a competição no plano global --recursos naturais em abundância, uma população jovem e o clima e as condições para que sejam grandes potências agrícolas. Ainda assim, toda essa riqueza natural e cinco décadas de ajuda estrangeira não conseguiram tirar a África da pobreza. Seria a corrupção o grande vilão dessa história?

Os sintomas da corrupção são facilmente identificáveis. Professores exigem suborno dos alunos porque não conseguem sobreviver com seus salários. Funcionários públicos, médicos e enfermeiras roubam drogas destinadas aos pacientes para vendê-las no mercado negro. Líderes africanos possuem propriedades em várias partes do mundo, enquanto seus cidadãos vivem com US$ 1 por dia, ou menos.

Na procura pelas respostas, tive de perguntar a mim mesmo algumas questões difíceis. É comum as pessoas dizerem que cada país tem o governo que merece. E nós africanos certamente fizemos algumas escolhas ruins ao elegermos nossos líderes. Os líderes ruins, no entanto, quase sempre são salvos pela ajuda externa.

A ajuda estrangeira tem dado legitimidade à corrupção e a regimes autoritários, permitindo que eles continuem no poder mesmo quando perderam a popularidade com os próprios cidadãos. Enquanto filmávamos dentro do hospital Mulago, o maior de Uganda, essas idéias vieram à minha mente com clareza.

Vimos dezenas de mães com bebês recém-nascidos deitadas no chão sujo de sangue, ao lado de seringas usadas ainda com as agulhas. Vítimas de acidentes de trânsito foram carregadas para os pronto-socorros por parentes, porque há poucos atendentes, poucas macas e ainda menos ambulâncias. Alguns pacientes foram deixados no chão, sangrando.

Estas foram imagens que vi repetidas por toda a África e que me fizeram perguntar a mim mesmo: por que nós africanos não podemos exigir mais de nossos líderes? Por que eles continuam escapando ilesos apesar de tanta negligência? Logo me lembrei de um outro ditado, uma cantiga de roda que os africanos aprendem na infância: quem paga o flautista escolhe a música.

Prestação de Contas

Muitos países subsaarianos vêm dependendo da ajuda estrangeira há décadas. Em alguns casos, ela corresponde a mais de 10 % do produto interno bruto, ou mais de a metade dos gastos públicos. Quando a metade do orçamento do governo vem da ajuda externa, o líder fica menos inclinado a cobrar imposto dos cidadãos.

Como resultado, governos que são altamente dependentes em ajuda dão muita atenção aos doadores e pensam pouco nas necessidades da população. Infelizmente, os doadores têm seus próprios objetivos, que nem sempre são os mesmos dos cidadãos de países africanos.
Construir escolas e hospitais novos em número recorde parece bom no papel e dá boa imagem aos políticos junto aos eleitores. Mas se os hospitais não têm os equipamentos mais básicos e se não há professores suficientes na sala de aula, quem sofre é o povo africano.

Oportunidades Perdidas

No que diz respeito à ajuda estrangeira, outra crítica cada vez mais freqüente entre os africanos, e raramente ouvida no Ocidente, é que ela patrocina o fracasso mas quase nunca premia o sucesso. Enquanto eu filmava em Uganda com minha equipe, o editor de um jornal local, Andrew Mwenda, nos levou ao vilarejo onde nasceu, perto da cidade de Port Loco, no oeste do país.
No vilarejo, ele nos apresentou a dois homens. Um, com cerca de 60 anos, outro, com 26. "Este homem representa a tragédia da ajuda externa", disse o editor, apontando para o mais velho. "E este representa o potencial da ajuda", ele disse, indicando o mais jovem.

Mwenda explicou que o sexagenário era diretor de um departamento da prefeitura local e durante grande parte de sua vida havia sido sustentado por dinheiro estrangeiro, enquanto supervisionava projetos que tinham como objetivo beneficiar a comunidade. Hoje ele é um alcoólatra que ainda mora com a mãe.

O homem mais novo começou vendendo batatas na praça do vilarejo aos 17 anos. Menos de dez anos depois, ele é o dono da maior e mais movimentada loja da vila. Ele não recebeu um centavo em ajuda, mas comprou terras e construiu uma casa.

"Você vê", disse Mwanda. "Se este jovem recebesse apoio na forma de crédito a juros baixos, ele poderia não apenas expandir seu negócio, gerando empregos e um serviço valioso para sua comunidade, mas poderia também, mais adiante, devolver o dinheiro". Mas ao invés de financiar inovações e criatividade, a ajuda externa financiou o estilo de vida irregular do homem mais velho.

Elevação de preços

Programas de ajuda que se estendem por vários anos também têm implicações para as economias em desenvolvimento. Trinta anos de dólares entrando na economia de Uganda deixaram o país sofrendo do que os economistas chamam de "doença holandesa". Grandes quantidades de moeda estrangeira entrando no país elevam o valor da moeda local, tornando seus produtos agrícolas e manufaturados menos competitivos.

Isto resulta em menos exportações e ainda menos ganhos domésticos, sustentáveis, para o país.
Empresários locais, como exportadores de café e de farinha, deveriam estar se beneficiando da alta global nos preços de alimentos e commodities, mas estão sendo marginalizados em sua própria economia pelos dólares da ajuda externa. Pequenos produtores africanos também tiveram de competir com produtos altamente subsidiados na Europa e América do Norte.

A indústria de algodão de Uganda é capaz de explorar quase meio milhão de fardos por ano, mas até o momento, em 2008, o país só conseguiu exportar 160 mil fardos. Altos subsídios do governo americano para os produtores de algodão nos Estados Unidos impedem que os agricultores de Uganda ofereçam preços competitivos nos mercados internacionais.

Em seus panfletos impressos em papel caro e nos seus websites high-tech, os doadores tendem a falar da importância do comércio para o futuro da África, mas muito pouco progresso tem sido feito na abertura dos mercados internacionais. A produção africana ainda representa apenas 1% do comércio global.

E pelo menos 70 mil profissionais recém-formados abandonam o continente todos os anos, freqüentemente após receber treinamento financiado pela ajuda externa, mas incapazes de permanecer no mercado local porque os salários são muito baixos. Até que essas pessoas talentosas e cheias de iniciativa possam ser atraídas de volta para a África, grande parte das missões de paz, e certamente a maior parte da ajuda externa, vão ter pouco resultado.

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