segunda-feira, 15 de setembro de 2008

A queda do reino

Era uma vez um reino muito distante, habitado por algumas criaturas felizes, que conviviam em harmonia e plenitude. Um reino de paz e beleza, cujos habitantes trabalhavam alegremente, uns completando o trabalho dos outros.

As famílias eram alegres e colaborativas, e normalmente tinham muitos filhos: todos convivendo harmoniosamente e sem atritos.

Verbos agindo e trabalhando como formiguinhas, prefixos e sufixos entrelaçados por seus amores radicais, pronomes, apostos, vocativos brincando adjuntos, o tempo inteiro (mas sempre respeitando as orações), sujeitos ocultos em esconde-esconde, poetas lançando figuras de palavras e de pensamentos e tudo regado a uma musicalidade peculiar ao grande reino... da língua portuguesa.

Mas num dia sinistro, algum muito estranho aconteceu!... Um tipo de vírus ou algo parecido, um inimigo invisível começou a perscrutar a vida feliz naquelas paragens e, lentamente, tratou de invadir aqueles domínios, inserindo seus microorganismos maléficos e cancerígenos que, ao longo do tempo, foram minando a qualidade de vida de seus habitantes.

Alguns deixaram de agir como agiam antes, outros simplesmente desapareceram - dos quais só se ouve rumores ainda hoje - e outros foram tão radicalmente transformados, de criaturas belas em bestas-fera, que nem sequer parecem mais originários de tão felizes primórdios...

Plurais foram massacrados, com termos como "sorvetes gelado", "pessoas parada" e "crimes perfeito"... verbos foram arrancados de suas conjugações, ficando então desorientados, sem saber para onde ir (futuro ou passado) dando origem a coisas horríveis como "roubarão minha senha" querendo se passar por pretérito, quando deveriam ser "roubaram minha senha"... Letras trocaram de lugares, se perderam de seus caminhos originais, dando origem a distorções como "pobrema", "previlégio", "esperimentar" e "assacino"...

Aproveitando a fraqueza provocada por aquela enfermidade, criaturas de outros redondezas começaram a invadir as terras daquele reino, e se misturaram à vida da população, e de tal maneira isso aconteceu que sua presença impregnou a vida cotidiana.. surgiam coisas como "o nosso know-how é ótimo", "precisamos de um upgrade", "hora de fazer um inside", "ela preparou um book" e "estou meio down hoje"...

Como se não bastasse o já combalido reino da língua portuguesa ter sido alvo de enfermidades e invasões, uma última e poderosa força foi arremessada sobre ele: seres alienígenas - formas de vida até então inimagináveis - cheias de aparatos tecnológicos nunca antes contempladas, como celulares, computadores com seus riquíssimos recursos, coisas que poderiam abrir as portas para fantásticas possiblidades, trouxeram junto de si um igualmente fortíssimo golpe: o mecanismo da alteração biogenética...

As palavras deixaram de ser elas mesmas, receberam DNA manipulado, se tornaram em clones e mutações estranhíssimas.. Amigo virou MiGuxU, "também" virou tbm, "bom" e "não" viraram baum e naum... As concatenações das palavras se transformaram em uma linguagem ininteligível.. frases que antes eram "Oi, amigo quero que você me visite esse fim de semana, pode ser?" virou "EAE MiGuxu,kro k vc m vzt esse fds, pdc?"

E assim, aquele reino que antes parecia tão promissor e equilibrado nunca mais foi o mesmo. Vez ou outra ouvia-se algum rumor acerca de pequenos grupos de resistência, que surgiam aleatoriamente território afora. Mas logo eram derrotados, capturados e publicamente humilhados por causa do seu jeito antiquado, por defenderem as bandeiras da sintaxe, da morfologia e da semântica - essas coisas tão velhas e fora de moda.

Se ele ainda existe? Dizem que existe... mas quem pode provar? Pois esta nossa história trata apenas do imaginário, da lenda... de um reino muito distante daqui.

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