quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Literatura de cordel (PARTE 2): a greve do bispo e a transposição do São Francisco - os argumentos do BISPO

Publicada em 10/12/2007 às 12h47m
Cleide Carvalho - O Globo Online
(Eu citei a fonte: quer me processar, processa. )

Dois anos após sua primeira greve de fome de onze dias, contra a transposição do Rio São Francisco , o bispo de Barra Dom Frei Luiz Flávio Cappio entra no 14 dia de seu novo período de jejum - A Tarde

SÃO PAULO - Aos 61 anos, o bispo dom Luis Cappio quer viver muitos anos. Ele tem amor à vida, diz. Mas há 14 dias está em jejum por um tema que muitos brasileiros conhecem bem de perto, mas a maioria só ouviu falar: a seca. Dom Cappio deixou de comer e promete ir até o fim até que seja paralisada a obra de transposição das águas do Rio São Francisco e homens do Exército desocupem canteiros montados no eixos leste e norte. Para ele, o rio é "inegociável assim como o ar que se respira" e o projeto de transposição só repete o que sempre se fez com o povo nordestino: enganação.

Nesta entrevista ao GLOBO ONLINE, Dom Cappio diz quais as razões de ser contra a transposição do São Francisco e afirma que o presidente Lula, ao defender o projeto, não faz mais jus a ser chamado de nordestino.

O Globo Online - Qual o fato novo no projeto de transposição do rio que o fez a voltar a jejuar?

DOM CAPPIO - Não existe nada de novo no projeto. Ele sempre foi o mesmo. Retornei porque há dois anos, quando fiz o primeiro jejum em Cabrobó, depois de muitas tentativas da sociedade dialogar com o governo para discutir o projeto, fizemos um acordo com o governo, que foi assinado e chancelado. O jejum foi um grito que sensibilizou o governo e a sociedade e no 11º dia um emissário do presidente Lula nos procurou. O acordo dizia que o processo de transposição seria interrompido, porque as obras não tinham começado, e se abriria amplo diálogo com todas as representações, universidades, comunidades ribeirinhas, ONGs, igreja. Dada a magnitude do problema, achávamos que o projeto deveria ser discutido.

E isso não ocorreu?

DOM CAPPIO - Dada ao acordo, interrompi o jejum em outubro de 2005. Acreditamos que o governo seria fiel ao que estava sendo assinado. Nestes dois últimos anos fizemos as mais diversas tentativas, não apenas eu, mas vários segmentos Os movimentos sociais se mobilizaram, tomaram o canteiro de obras para iniciar o diálogo, fizeram de tudo para que o diálogo acontecesse. Tudo em vão. O governo se manteve surdo.

A obra de fato começou?

DOM CAPPIO - A resposta foi o início da obra com o uso do Exército. Eles estão no eixo norte e no eixo leste. Não foram poucas as tentativas de fazer com que acontecesse o que foi acordado.

" O projeto é socialmente injusto. Ele vai transpor estas águas, com gasto imenso, e os endereços não são as comunidades carentes de recursos hídricos. "

O que o faz ser contra o projeto de transposição do São Francisco?

DOM CAPPIO - São quatro pontos que nos fazem ser contra e serei didático. Primeiro: Esse projeto é economicamente inviável. O próprio governo já tem alternativas pela metade do preço. No começo deste ano, a Agência Nacional das Águas (ANA) lançou o Atlas do Nordeste com 530 alternativas para abastecimento hídrico das comunidades urbanas de todo o Nordeste. Elas atenderiam 34 milhões de pessoas e são mais baratas e viáveis do que a transposição. Há ainda as alternativas para a população rural do semi-árido, que atenderiam 10 milhões de pessoas. Somando as alternativas rural e urbana, elas atenderiam 44 milhões de seres humanos com abastecimento direto para as comunidades carentes. A transposição do Rio São Francisco atenderia 12 milhões. É economicamente inviável.

Segundo: O projeto é socialmente injusto. Ele vai transpor estas águas, com gasto imenso, e os endereços não são as comunidades carentes de recursos hídricos. O endereço é o incremento do capital, a criação de camarão em cativeiro, a produção de frutas nobres para exportação e o fornecimento à indústria pesada do Nordeste. Não é o povo, mas as iniciativas de capital para incrementar os negócios. Por isso, o interesse das empresas no projeto.

Ao incrementar os negócios, a transposição do São Francisco não vai criar renda e emprego para a população do Nordeste, dando nova condição de vida à região?

DOM CAPPIO - Quem mora aqui sabe o que não é ter água para beber. Antes de falar de emprego, é preciso falar da sobrevivência da população. Desenvolvimento para quem? Para o povo? Esta é a manutenção da velha política, do povo usado e manipulado em benefício de um pequeno grupo. Outro ponto é quem vai pagar a conta: o mecanismo de subsídio cruzado. Quando a água chegar ao destino, na Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará, pode-se imaginar o preço desta água. O subsídio cruzado significa que cada cidadão do Nordeste vai pagar a conta da água que vai beneficiar os grandes negócios.

"O Rio São Francisco não está na UTI. Quem está na UTI tem médicos e recursos. O São Francisco está na fila do SUS "

Quais são os outros argumentos?

DOM CAPPIO - O terceiro é que o projeto é ecologicamente insustentável. O Rio São Francisco - moro há 33 anos na beira do rio e tive oportunidade de ir da nascente à foz - não está na UTI. Quem está na UTI tem médicos e recursos. O São Francisco está na fila do SUS e não sabe se será atendido.

Quais os problemas do rio?

DOM CAPPIO - É a degradação à calha principal e de toda a bacia. Todo o parque industrial de Belo Horizonte deságua no São Francisco pelo Rio das Velhas e o do sudoeste de Minas também. Da mata ciliar do rio restam apenas 5%. O desmatamento deu lugar à monocultura do eucalipto, ao latifúndio para a criação do gado. O Rio São Francisco pede socorro. É preciso um projeto de revitalização sério e ele não pode estar atrelado à revitalização. Para justificar ecologicamente a transposição, fala-se em revitalização. É apenas uma casca que justifica o projeto, mas na realidade não há interesse na revitalização. Imagine esta água caminhando 2 mil quilômetros por canais de 25 quilômetros de largura por 5 de profundidade. Com que qualidade esta água vai chegar? É essa água que queremos oferecer aos irmãos do Nordeste?

Falta ainda o quarto argumento. Qual é?

DOM CAPPIO - A transposição é, eticamente, impossível de ser aceita. Este projeto inaugura o hidronegócio no Brasil, coloca a água na banca do mercado. A água é um dom para a vida. Ninguém pode pagar o ar que respira, nem a água que bebe. A partir dele, a água passa a ser objeto de compra e venda e é eticamente inaceitável. Não podemos aceitar que a água, um bem de Deus, vire produto à banca do mercado.

O presidente Lula é nordestino. Qual a posição pessoal dele em relação ao projeto?

DOM CAPPIO - Na época que ele fazia jus a seu nome de nordestino, ele era contra. Fez discurso contra o projeto em Petrolina e Juazeiro. 'Não me fale nesta palavra', dizia quando falavam em transposição. Agora, depois de ter se tornado presidente e freqüentado as altas esferas do Brasil e do mundo, mudou de pensamento. Não só ele, mas boa parte de seus companheiros de partido que se manifestaram contrários. A curriola vai toda atrás.

As pessoas acham seu jejum um ato isolado. O que o senhor diz sobre a crítica?

DOM CAPPIO - Digo que elas estão desinformadas. Neste momento, aqui na paróquia (Dom Cappio está em uma paróquia de Sobradinho) estão cerca de 100 pessoas. Tem gente de várias cidades. Na manifestação de ontem eram 5 mil, com delegações da Alemanha e da Áustria, inclusive.

O senhor deve manter o jejum até suas exigências serem atendidas?

DOM CAPPIO - As exigências são duas: paralisação da obra e saída do Exército. A presença do Exército é um desrespeito à população do Nordeste. O São Francisco não é assunto a ser negociado, vidas não se negociam. Não quero morrer. Tenho muito amor à vida. Tenho 61 anos, quero viver muitos anos. Mas coloquei a vida para defender o meu povo. Minha missão é esta. Se for necessário, a gente dá a vida. As vezes é necessário que a semente caia no chão e apodreça para que renda frutos.

Nenhum comentário: