segunda-feira, 27 de novembro de 2006

A velha

A velha escreve suas cartas ao amor perdido no passado
Escreve suas poesias como se lá se pudessem lê-las
Lança suas palavras em direção ao tempo como se fossem flechas
Tenta atingir o corpo de quem cria os sonhos
ou ressuscitar a esperança de um amor sincero.

Se os matasse talvez descansaria de seus devaneios
De uma felicidade possível numa rota alternativa da realidade
Que fendeu-se num instante pequeno, perdido entre um sim e um não
perdido entre um momento ínfimo de tempo em que houve dúvida
em que houve exitação.

"Um minuto..." - pensa a velha, acorrentada naquele momento maldito
"...e toda uma vida se perde, toda uma vida se paralisa."
Separada pela eternidade, a sonhar com o beijo interrompido
Com o prazer nunca alcançado, e com o futuro despedaçado.

domingo, 26 de novembro de 2006

Por querer

Sandro

Eu te amei, te amo e te amarei
Te amo tanto e muito mais que a mim
Te amo tanto que não digo sim
Te amo tanto que já nem mais sei

Te amo tanto que escolherei
Voar nas asas de um querubim
Voar para muito longe, e assim
teu triste pranto não prolongarei

Te amo tanto que prefiro ser
O homem feio que agora faz sofrer
Do que o que te fere a cada dia

Te amo e sei que me amaria
Seu tu soubesses que esta alma fria
É a mesma alma que ama você.

sábado, 18 de novembro de 2006

Amor?

Será que há amor no teu coração
O suficiente pra cuidar de mim
O suficiente pra dizer que sim
E que seja maior do que tua razão?

Será que há amor no teu coração
Que tudo, mesmo, possa suportar?
Que realmente possa revelar
Os caminhos em meio à escuridão?

Eu quero crer em um amor assim
Que haja entre um homem e uma mulher
Que traga o "feliz" para junto do "fim"

Quero ver nascer... e quem não quer?
Saber que existe um tal amor assim
Que haja entre um homem e uma mulher.

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

imperfeito

A vida é muito imperfeita. Eu não consigo entender sua lógica. Talvez a lógica da própria vida seja não ter lógica e eu é que fico insistindo em encontrar isso nela.

A rota imperfeita da história parece navegar entre canais e sulcos, como a água ocupa aleatóriamente os espaços pelo caminho aonde escorre. Mas mesmo a água escorrendo pelo chão segue uma lógica - a dos espaços disponíveis - enquanto a vida parece não seguir nenhuma.

Eventos novos acontecem o tempo todo, aparecem inesperadamente: uma paixão, uma morte, uma doença, uma oportunidade - às vezes perdida, uma escolha necessária - às vezes errada.

E na parte das escolhas eu costumo tentar seguir a lógica da razão, e não do coração. Será que eu aprendo um dia?

domingo, 5 de novembro de 2006

amor

O amor é minha fonte de vida
Minha fonte de inspiração
O próprio ar que eu respiro.

As coisas que eu vejo no cotidiano,
Consigo enxergar nelas o toque do amor.

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

perfeição


Renato Russo

Vamos festejar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação
Celebrar a juventude sem escolas
Crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar eros e thanatos
Persephone e hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia e toda a afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos o hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos celebrar a violência
E esquecer da nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso
Com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção
Venha, meu coração esta com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça:
Venha que o que vem é perfeição...