terça-feira, 11 de julho de 2006

conto: tragicomédia urbana



José nasceu pobre, viveu pobre e, agora, morreu mais uma vez - dessa vez pra sempre - e ainda pobre. Quando era pequeno seu perverso padrasto o arrastava, com seu irmão mais velho e sua irmã do meio pela rua. Onze horas da noite eles ainda estavam no cruzamento da Freitas com a Brasil, pedindo esmola, imundos, chorosos, quase mortos de fome e cansaço.
José morreu muitas vezes. Mas antes disso, viu muitas coisas morrendo em torno dele enquanto ainda vivia. Morreram seus brinquedos de criança, o velho cabo de vassoura que usava para brincar de tudo, do carrinho ao cavalinho, da espada à nave espacial. Cabo de vassoura que seu pai quebrou nas costas do seu irmão mais velho. Aquele que nunca mais voltou. E que morreu duas vezes: quando partiu dali deixando José para trás, e quando uma bala encontrou sua cabeça durante a fuga de um assalto.
Morreram seus sonhos junto com sua mãe doente, junto com sua irmã prostituída, deprimida e destruída. Só o padrasto insistia em não morrer. Só aquela praga. A doença é assim: mata tudo, mas ela mesmo não morre.
A morte lenta também acompanhava José: morriam suas esperanças enquanto o tempo passava sem que seu pai voltasse. E porque nunca o conhecera, justamente por isso, ele era tão mártir. José descobriu que o mártir, ao passar o tempo, dá lugar ao maldito.
Finalmente morreu José, da maneira mais humilhante possível, sujo de barro, dentro de um poço, que nem um bicho, qualquer, fungindo da polícia, da gente, dos olhos, da vida.
O padastro, esse anda por aí ainda.

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